1. As faculdades cognitivas

Quem já praticou esportes, balé, artes marciais ou algum tipo de fisioterapia conhece a expressão “consciência corporal”. Ela designa a percepção consciente da ação dos músculos envolvidos em determinado exercício. Com a prática, a percepção se torna cada vez mais minuciosa, o que resulta em mais eficiência e perfeição de movimentos.

Por analogia, acredito que é possível alcançar uma “consciência intelectual”, isto é, a percepção consciente das faculdades e ações mentais envolvidas na elaboração dos pensamentos, de modo a desenvolver uma maior clareza de observação e raciocínio, além do domínio efetivo do processo que resulta na produção de textos, que é o que nos interessa aqui.

A expressão “consciência intelectual” talvez soe como uma novidade, mas a ideia remonta a Aristóteles, e está implícita em qualquer teoria do conhecimento ou gnosiologia. É o resultado de “se pensar o pensamento” ou de “se ver pensando”. Não é exatamente uma tarefa difícil, mas pensar é uma atividade tão natural, tão espontânea, que não nos ocorre pensar como pensamos, porque raramente temos dúvidas sobre a veracidade e a precisão de nossos pensamentos, especialmente de nossas impressões sensíveis sobre o mundo. Por isso, esse tipo de reflexão auto-contemplativa ou introspectiva é estranha à maioria das pessoas e exige alguma orientação.

Mas, se olhamos para nós mesmos, num exercício simples de introspecção, a primeira coisa que percebemos – acredito que a mais primária de todas – é que o pensamento é um processo dinâmico e incessante que envolve quatro faculdades mentais facilmente discerníveis: a sensibilidade, a imaginação, a memória e o entendimento.

Por sensibilidade entendo o conjunto dos cinco sentidos: a visão, a audição, o tato, o olfato e o paladar.

Mas, todos os sentidos parecem convergir para a visão, isto é, todos os dados sensíveis tendem à produção de imagens.

Não soará estranho, portanto, dizer que a faculdade mais próxima à sensibilidade é a imaginação.

Geralmente associamos imaginação à fantasia, à capacidade de construir situações hipotéticas ou fictícias, mas o sentido primário de imaginação é exatamente a capacidade de produzir imagens. Para produzir essas imagens, a imaginação combina dados registrados na memória que correspondem a experiências, abstrações ou fantasias passadas, realizadas ou não, e (mas não necessariamente) dados sensíveis presentes. É pela imaginação que podemos, por exemplo, “ver” um objeto a partir de dados sonoros, conceber um objeto a partir de sua descrição ou deduzir sua forma a partir apenas da parcela visível, como no caso do “gato escondido com o rabo de fora”.

A memória é a capacidade de guardar de modo ordenado os dados das experiências sensíveis e intelectuais, e mantê-los virtualmente presentes e acessíveis. A imagem de um rosto, um poema, a sucessão de fatos de uma história, as definições e imagens esquemáticas das coisas são exemplos dessa capacidade cuja expressão mais perfeita é a própria palavra.

Finalmente, o entendimento é a faculdade associada à abstração e à analogia, isto é, ao poder de extrair (abstração) desses dados, definições, regras, leis, hipóteses, conclusões, juízos – enfim, sentidos gerais e abstratos que ultrapassam a experiência imediata – e, se necessário, associá-los (analogia) a outros dados que não lhe são imediatamente correlatos, mas que, por meio dessa associação, terão seu sentido ampliado ou esclarecido.

O entendimento é também responsável pelo que chamo de “domínio do tempo”, uma capacidade exclusivamente humana de que falaremos mais adiante.

Essas quatro faculdades, que podemos reconhecer em nós mesmos com facilidade, nunca de fato atuam separadas. Nunca estamos só lembrando ou só imaginando ou só sentindo. O pensamento é um processo complexo que sempre envolve todas as faculdades simultaneamente, em maior ou menor medida, segundo o modo em que a mente opere a cada momento.

Por exemplo, quando lembramos, a memória é a faculdade principal, mas o ato de lembrar envolve também a imaginação, a sensibilidade e o entendimento. Se imaginamos, seja uma história, seja uma simples figura, trabalhamos ou com dados sensíveis registrados na memória, ou com abstrações que acabam por tomar, pela imaginação, a forma de imagens. A sensibilidade todo tempo recorre à memória e mesmo à imaginação para definir o que sente. E o entendimento coordena e como que amplia todas essas ações.


Como disse antes, é raro que alguém se ponha a “pensar o pensamento”. Mas há exercícios mentais que podem ajudar nessa tarefa.

Por exemplo, sente numa posição confortável, feche os olhos e depois de alguns segundos de relaxamento,  tente identificar cada uma dessas faculdades em ação separadamente.

Comece pelas sensações. Sinta a brisa, às vezes quase imperceptível; a temperatura do ambiente, se faz calor ou frio; os sons da casa e da rua. Concentre-se para que só as sensações ocupem a sua mente.

Depois de um tempo, desligue-se das sensações e tente lembrar tudo que lhe aconteceu nas últimas horas. Se ainda é de manhã, comece pelo momento em que você foi para cama, tudo que fez antes de dormir, a roupa que usou, o sonho que teve. Da hora em que acordou até agora, o que fez? Tente recordar minuciosamente, o que comeu, onde foi, a cor das coisas que viu.

Descanse um pouco e tente imaginar a viagem dos seus sonhos: onde você gostaria de ir, com quem. Imagine as paisagens, as pessoas, imagine-se interagindo com elas nesses lugares, almoçando, tomando café, fazendo compras, apreciando um por do sol.

Enfim, o entendimento. Por que você escolhe esse lugar para a viagem dos seus sonhos? Você consegue associá-lo a algum fato ou pessoa? E nos suas memórias recentes, você consegue encontrar algum vestígio de presença desse fato ou pessoa?


Para finalizar, você percebeu que por mais que a gente se esforce, é impossível isolar inteiramente uma faculdade?

Percebeu que “o pensamento é um processo complexo que sempre envolve todas as faculdades simultaneamente, em maior ou menor medida, segundo o modo em que a mente opere a cada momento“?

Guardemos isso então.